terça-feira, 24 de março de 2026

olhar de ver ou visão de olhar ?



‘.                 'Meus olhos andam cegos de te ver’
                                                  Florbela Espanca

     Seus olhos já enfrentaram a força de um outro olhar? Daqueles que atravessam o momento do encontro em segundos, como uma flecha aguda e tensa??
     Outro dia assisti uma cena assim: Duas pessoas que não se conheciam, se olharam com tanta vontade de se perceberem que pareciam querer dizer tudo o que foi guardado em suas vidas até o cruzamento do “ veja estou te vendo”...
     Havia um déjà’ vous misturado com eu nunca te vi, mas sei quem você é.
     Encararam-se, aproximaram-se e tocaram os sinos do: E então?
     Fim de tarde! Foram juntos ver o pôr do sol, se entreolharam e ficaram com os olhos fixos na direção do espetáculo. Selaram o encontro e despediram-se, pra nunca mais…
      O que disseram? Só o Universo sabe e guardou em seu silêncio infinito.
       Partiram sem olhar para trás.


poesia molhada

versos pescados à beira rio
sem anzol, rede, nem nada
vieram no canto do passario
escritos asas na revoada 
 
Estrofes caíram em meus ouvidos
como num coro, ou partitura
dançando ao pôr do sol raios idos
até a tornar-se margem escura

O poema anoiteceu enluarado
rimando com som do vento
tecido por um céu estrelado
paisagem de sentimento
 
Dormiu no orvalho e floresceu 
espalhando-se iluminado
sobre a relva amanheceu
desfazendo-se ensolarado





segunda-feira, 23 de março de 2026

Interdito

Quem não entende um olhar
não merece explicação
Se há um blues na visão 
não cabe um blá blá blá 

Atravessa a estrada, a rua
negando o pensamento 
Abre a janela um momento
deixa entrar toda lua

Mãos tocam sons invisíveis
Num instrumento que não há 
Transparentes incorrigíveis 

Fingem-se, negam-se lá e cá 
Sensações ininteligíveis
querem-se sem poder amar.


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

rimas negras

Rimas negras


A vida toda entoada,

 sofrendo repreensão,

 estando certa ou errada 

 sentindo-me na contramão.


Sempre fui considerada

abusada, perdida em vão,

negra, renegada, negrada

sem freio, ou sem direção.


Orgulho-me da empreitada

empretada na branquidão.

Sou preta, forte e ousada

grito-me sem rouquidão.


Ancestralidade apurada,

cultura sem rendição, 

pele da noite enluarada

sou americafricanização.


Subo ao púlpito poetizada

contra a discriminação.

 Insolência ensolarada,

em palavras e ação.


Rasgo atemporalizada

correntes quebradas ao chão

refaço a caminhada

livre das marcas da opressão.


Sou as mulheres negras exaltadas,

guerreiras por condição,

aqui nesta noite, versadas

opostas a qualquer submissão